Resumo do artigo
- A falta de inclusão é apontada como barreira para o crescimento do setor fitness no Brasil. Apesar do aumento no número de academias, apenas 10% da população as frequenta regularmente.
- O texto destaca que pessoas com deficiência, idosos e iniciantes enfrentam barreiras físicas, culturais e emocionais. A ausência de estrutura e a sensação de não pertencimento são os principais motivos da exclusão.
- Academias que investem em acessibilidade e escuta ativa têm se destacado. A inclusão é tratada como estratégia de crescimento, com foco em ampliar o público, fidelizar alunos e fortalecer a marca.
O setor fitness brasileiro vive um momento de expansão e reinvenção. São milhares de academias ativas, novos modelos de negócio surgindo, digitalização crescente e mais interesse por bem-estar em todas as idades. Mas em meio a esse crescimento, há uma barreira silenciosa que segue limitando o verdadeiro potencial do mercado: a falta de inclusão.
Segundo especialistas, apenas cerca de 10% da população brasileira frequenta academias com regularidade. Isso revela uma demanda reprimida enorme. São milhões de pessoas que ainda não se sentem parte desse movimento, seja por não se verem representadas, não encontrarem estrutura adequada ou simplesmente não se identificarem com a cultura dominante no universo fitness.
A inclusão no setor fitness precisa deixar de ser tratada como um tema periférico. Ela deve ocupar o centro das estratégias de crescimento, posicionamento e impacto social das academias. Mais do que um discurso, ela é uma resposta concreta à pergunta que muitos gestores evitam encarar: por que seguimos falando sempre com os mesmos públicos?
O Tamanho do Mercado Não Reflete Sua Inclusão
O setor fitness brasileiro vive um momento de expansão constante, mas essa evolução ainda não alcança todos.
O Brasil é o segundo país com mais academias no mundo, concentrando cerca de 14% das unidades globais, segundo dados da Statista. Redes com planos acessíveis, academias de nicho e plataformas corporativas têm impulsionado esse crescimento. Ainda assim, apenas 10% da população brasileira frequenta academias com regularidade.
Isso revela uma contradição: o número de academias aumenta, mas a diversidade de públicos atendidos segue limitada.
Boa parte das pessoas continua de fora, não por falta de oferta, mas por sentir que esses espaços não foram feitos para elas. Barreiras estruturais, culturais e emocionais afastam públicos inteiros. Pessoas com deficiência, idosos, iniciantes, pessoas acima do peso ou que não se identificam com o padrão estético dominante enfrentam dificuldades para se sentirem acolhidas.
De acordo com o IBGE, mais de 17 milhões de brasileiros convivem com algum tipo de limitação funcional. No entanto, uma pesquisa da Revista Brasileira de Educação Especial revelou que apenas 15% das pessoas com deficiência física entrevistadas frequentam academias com regularidade. A maioria sequer considera essa possibilidade.
Além da falta de estrutura adaptada, muitos citam o despreparo das equipes, a ausência de equipamentos adequados e a sensação de não pertencimento como os principais motivos para a não adesão.
Esse cenário reforça um ponto importante: crescer em número de unidades não é o mesmo que crescer em impacto real. Incluir mais pessoas nas academias exige mais do que infraestrutura — exige uma mudança de cultura.
Inclusão é Crescimento: Quem Entende Isso Sai na Frente
Abrir espaço para novos perfis de alunos não é mais uma questão apenas de responsabilidade social. É uma oportunidade real de crescimento, consolidação de marca e fidelização. Redes que entenderam isso saíram na frente — e os resultados já começam a aparecer.
Adaptação da Estrutura Vai Além da Lei
Rampas de acesso, elevadores, vestiários adaptados e equipamentos acessíveis são o mínimo. Mas o diferencial competitivo está no olhar mais estratégico: transformar acessibilidade em experiência.
Na Gaviões Academia, por exemplo, a inclusão faz parte da essência da operação. Das 48 unidades em funcionamento, 35 já contam com estrutura adaptada, o que representa quase 73% da rede. A escolha foi clara: tornar o ambiente acolhedor desde o projeto arquitetônico até o atendimento diário.
A CEO Priscila Aguiar reforça que não se trata apenas de cumprir exigências legais, mas de enxergar essas mudanças como parte do crescimento do negócio. Criar ambientes em que qualquer pessoa se sinta segura e respeitada amplia o alcance da marca e fortalece o vínculo com o cliente.
A Escuta Como Estratégia de Retenção
Não basta abrir as portas — é preciso escutar quem está entrando. Diversas redes que investiram em inclusão relatam ganhos significativos na retenção de alunos quando há canais de escuta ativa e ajustes contínuos na experiência.
Pessoas com deficiência física, idosos e iniciantes geralmente não encontram um espaço preparado para suas necessidades. Quando são ouvidos, respeitados e incluídos nas decisões, passam a se engajar com mais constância e a indicar a academia para outras pessoas com perfis semelhantes.
É o caso de academias como a TAI Crossfit, que transformou a crise da pandemia em uma oportunidade. Ao adaptar seus espaços e ampliar o leque de serviços, incluindo fisioterapia e modalidades de suporte, a rede saltou de 100 para mais de 600 alunos em seis meses.
Geração 60+: O Público que Mais Cresce
O público acima dos 60 anos tem protagonizado uma verdadeira virada de chave no setor fitness. Segundo o professor da FGV Roberto Kanter, essa faixa etária triplicou sua participação nas academias, passando de 5% para 15% nos últimos anos.
Mais que um dado de crescimento, essa é uma sinalização de mercado. Esse grupo possui maior poder aquisitivo, valoriza atendimento personalizado e busca longevidade com autonomia. Redes que conseguem atendê-lo com estrutura, respeito e segurança colhem benefícios em fidelização e indicação.
Além disso, esse público contribui para a quebra do estigma de que a academia é um ambiente exclusivamente jovem, competitivo e centrado na estética.
Academias Boutique e Hipersegmentação
Outra tendência que reforça a importância da inclusão é o crescimento de academias de nicho, também chamadas de academias boutique. Elas oferecem experiências personalizadas, foco em públicos específicos e alto nível de atendimento.
Empresas como Smart Fit, que lidera em escala e acessibilidade, também vêm investindo em marcas como a Race Bootcamp, Jab House e Vidya, voltadas para nichos como boxe, yoga e treinos funcionais. Esse movimento mostra que o mercado está deixando de falar com “todo mundo ao mesmo tempo” e aprendendo a dialogar com perfis diversos.
Em um setor competitivo, quem inclui com intencionalidade ocupa novos espaços — e os consolida com consistência.
Inclusão Vai Além da Estrutura: Cultura, Representatividade e Pertencimento
Acessibilidade é só o começo. Uma academia pode ter rampas, elevadores e equipamentos adaptados, mas ainda assim afastar alunos se a experiência for marcada por olhares de julgamento, discursos excludentes ou equipes despreparadas.
Quando o Ambiente Exclui Silenciosamente
Muitas pessoas entram em uma academia pela primeira vez e se sentem deslocadas. Não enxergam ninguém com um corpo parecido, não entendem a linguagem dos treinos, não se identificam com a comunicação visual e, principalmente, não se sentem seguras ali.
Esse desconforto é real. E ele não tem nada a ver com preguiça ou falta de comprometimento. É o resultado de uma cultura que ainda valoriza a performance, o corpo ideal e a alta intensidade acima de tudo — ignorando que cada pessoa chega com um histórico único, um ritmo próprio e, muitas vezes, com inseguranças profundas.
A Equipe Também Precisa Se Sentir Parte
A inclusão precisa começar internamente. Se os profissionais da academia — recepção, limpeza, professores — não se sentem parte do ambiente, como vão transmitir acolhimento e empatia para os alunos?
Muitos desses colaboradores também fazem parte dos grupos que se sentem excluídos: mulheres acima do peso, homens que não se enquadram no estereótipo fitness, pessoas negras, LGBTQIAPN+, profissionais iniciantes ou com outras formações.
Treinar a equipe é essencial. Mas mais do que capacitação técnica, é preciso estimular o respeito, a escuta e a diversidade nas relações diárias. Isso se reflete diretamente na permanência dos alunos e na reputação da academia.
Representatividade Importa — Muito
Quando uma marca só mostra corpos sarados e jovens nas redes sociais, ela envia uma mensagem clara, mesmo que sem intenção: “isso aqui não é para você”.
Incluir diferentes corpos, idades, etnias e estilos de vida na comunicação é um passo simples — e poderoso. Gera identificação, reduz a barreira emocional e aproxima quem está em dúvida sobre entrar. Representatividade é o primeiro passo para o pertencimento.
Conclusão: A Inclusão é a Estratégia Que Ainda Falta
O setor fitness já provou sua força em números. Cresce em unidades, receita e diversidade de modelos. Mas para crescer de forma sólida e sustentável, precisa fazer uma escolha clara: colocar a inclusão no centro da estratégia — e não como um projeto paralelo.
Não basta investir em aparelhos modernos ou lançar programas mirabolantes. Enquanto a experiência for pensada apenas para um tipo de corpo ou perfil, grande parte da população seguirá do lado de fora. E isso vale para clientes e para colaboradores.
A verdadeira barreira do crescimento não é a concorrência. É continuar falando apenas com quem já está dentro.
Incluir é escutar, adaptar e criar espaços onde mais pessoas se sintam vistas, respeitadas e acolhidas. É entender que bem-estar não tem padrão, nem fórmula pronta.
Quem entender isso agora, vai sair na frente nos próximos anos.
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